Faltam diretoras e conselheiras nas companhias

Por Naiara Bertão

Pesquisa mostra que um quarto das empresas listadas na bolsa não tem nenhuma mulher em cargo de liderança.

Um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) em parceria com o “Valor Investe” mostra que quase um quarto das empresas de capital aberto não tem nenhuma mulher na diretoria ou no conselho. Das 295 empresas avaliadas, 77,6% (229) têm mulheres na liderança (em cargos de diretoria, conselho de administração, conselho fisc

Um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) em parceria com o “Valor Investe” mostra que quase um quarto das empresas de capital aberto não tem nenhuma mulher na diretoria ou no conselho. Das 295 empresas avaliadas, 77,6% (229) têm mulheres na liderança (em cargos de diretoria, conselho de administração, conselho fiscal), mas 22,4% não possuem nenhuma profissional no C-Level ou conselhos. Os dados foram filtrados a partir do que as empresas colocam em seus formulários de referência.

O levantamento mostra que, do total de companhias, mais da metade (57,3% ou 169 delas) tem ao menos uma mulher no conselho de administração e 38% (112 empresas) têm alguém do sexo feminino no conselho fiscal.

No nível de diretoria, porém, o quadro piora: apenas 105 das 295 companhias avaliadas pelo IBGC têm ao menos uma mulher no C-Level. Isso representa 35,6% do total. “A diferença de gênero em cargos de liderança existe porque existem vieses inconscientes. A mudança passa por um exercício diário de reflexão e faz parte da educação. O processo de diversidade e inclusão precisa ser olhado por todos. Se os lugares têm mais ou só homens, eles precisam olhar para isso e entender que é benéfico para a empresa”, diz Valéria Café, diretora de Vocalização e Influência do IBGC.

As discrepâncias entre homens e mulheres são grandes quando observadas as empresas e os indivíduos. As 295 empresas avaliadas possuem, no total, 4.989 funcionários em posições de liderança (diretoria, conselho fiscal, conselho de administração e os que ocupam concomitantemente assento no conselho de administração e cargo na diretoria). Desses, 87,2% (4.349 profissionais) são homens e 640 (12,8% do total) são mulheres.

Quando avalia-se quem tem ao menos 30% dos funcionários em cargos de liderança (conselhos e diretoria) do sexo feminino, vemos que apenas 7,46% do total (ou 22 empresas das 295) estão nessa posição. Entre aquelas que têm um terço (33% para cima), o número se estreita ainda mais: são apenas 16 da amostra.

Apenas duas empresas possuem metade (50%) dos profissionais na liderança homens e a outra metade mulheres. A Ampla Energia e Serviços tem 16 profissionais na liderança (oito homens e oito mulheres) e a petroleira OSX possui dois homens e duas mulheres). Nenhuma tem a maioria da liderança do sexo feminino, ou seja, mais de 50% de mulheres em relação ao total de profissionais nessas posições.

A boa notícia é que a pandemia acelerou a mudança. “De um ano para cá, o processo de olhar para diversidade no ambiente corporativo cresceu muito. Discussões sobre diversidade de gênero, raça, LGBTQ+ e inclusão de minorias, como pessoas com deficiência entraram na pauta e comitês e áreas foram criadas para tratar disso”, diz Valéria.

No ano passado, o IBGC lançou uma agenda positiva de governança e um dos pilares foi reforçar a importância da diversidade e inclusão para aos executivos de alto escalão. O instituto também passou a se preocupar internamente, garantindo que tenha equidade de gênero no quadro de professores de seus cursos.

“Existe hoje uma pressão da sociedade e dos investidores nacionais e internacionais, muito ligada à onda ESG [sigla que se refere à parâmetros de sustentabilidade – ambiental, social e governança corporativa]. E esse movimento veio pra ficar”.

O estudo também identificou que 43,3% das 640 profissionais do sexo feminino em cadeiras de liderança ocupam posições em conselhos de administração. Um quarto (26,3%) estão em conselhos fiscais. Na diretoria são 27,8% (ou 178 profissionais). Quando analisadas mulheres que ocupam ao mesmo tempo cargo na diretoria e no conselho de administração são apenas 17 pessoas ou 2,7% do total.

Avaliando as mulheres apenas em diretoria, apenas três das 178 mulheres (1,7% do total) são apontados no formulário de referência como diretora-presidente ou superintendente e outras cinco (2,8%) como vice-presidente. Dezesseis (9%) são diretoras de relações com investidores e três diretoras financeiras e de relações com investidores.

Os cargos mais comuns são administradoras de empresas, advogadas, economistas, engenheiras e contadoras. Em termos de idade, as mulheres em conselhos de administração têm cerca de 52 anos, as de conselhos fiscais, 53 anos e as que estão em cargos de diretoria, 48 anos. Em conselho de administração, a mais jovem tem 26 anos e a mais velha, 86. Em conselho fiscal as idades variam de 24 anos a 82 e em diretoria, de 29 a 73 anos.

A média de mulheres que ocupam cargo no conselho fiscal (12,86%) entre as empresas avaliadas é maior do que a média de profissionais do sexo feminino no conselho de administração (12.76%) e que ocupam cargo na diretoria (11,65%).

Ao analisar separadamente a participação das mulheres na liderança por categoria que as empresas estão na B3, percebe-se que as companhias que estão no mais alto em termos de exigências de boa governança corporativa e transparência são as que tem maior fatia de mulheres em postos mais altos. Das 640 mulheres em cargos de liderança, 301 trabalham em companhias que estão no Novo Mercado. Dessas, 67% (ou 428) foram eleitas a seus cargos pelo acionista controlar da companhia, conforme informações que as próprias empresas preenchem no formulário de referência exigido pela CVM. Apenas 212 (33%) estão em suas posições por outros meios que não a indicação dos maiores sócios. Das 301 mulheres na liderança em empresas do Novo Mercado, 178 são indicações dos controladores.

Para definir o escopo das empresas elegíveis para o estudo, o IBGC considerou companhias de capital aberto dos níveis Bolsa, Bovespa Nível 1, Bovespa Nível 2 e Novo Mercado da B3. Também foram apenas consideradas companhias em fase operacional e que da categoria A pela definição da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), ou seja, que são mais exigidas na divulgação de dados e transparência. Foram excluídas as que estão em fase pré-operacional, em recuperação judicial, recuperação extrajudicial ou com operações paralisadas.

Matéria na íntegra de Naiara Bertão – Valor

Editora Global Partners

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