Primeiro vem a saúde

ECONOMIA

Gerdau: Não dá para prever economia pós-crise, mas saúde preocupa mais, diz CEO da Gerdau.

As incertezas do coronavírus são vistas como um “desafio” pela gigante produtora de aço no Brasil, Gerdau. Gustavo Werneck, CEO de uma das maiores indústrias nacionais, disse que a empresa é sólida, mas não é possível projetar nada para a economia mundial. Ele declarou que a maior preocupação agora é com a saúde de colaboradores e comunidade.

Cenário de incertezas

Qual é a projeção que o senhor faz para a economia em geral, para o setor de aço e para a Gerdau, diante do atual cenário do coronavírus?

Gustavo Werneck – O momento que vivemos é desafiador para todos os países e indústrias e, por conta deste cenário de incertezas, não é possível ter, hoje, uma projeção para a economia dos países em que estamos presentes.

A Gerdau é uma empresa sólida e está preparada para enfrentar as instabilidades desse período. Esperamos que a normalidade das nossas rotinas seja retomada logo.

Gostaria de reforçar, ainda, que nossa maior preocupação é com a saúde, segurança e bem-estar dos nossos colaboradores e familiares, comunidades, fornecedores e clientes nas regiões em que atuamos.

Reforma trabalhista deu oportunidades a negros e LGBTs

UOL – Qual a sua opinião a respeito da reforma trabalhista? Ela veio com uma proposta de aumentar o número de empregos, mas ainda vemos 11 milhões de desempregados e uma enorme informalidade.

Gustavo Werneck – Eu sempre olho a reforma trabalhista conectada à nova “lei da terceirização”. Ela, na prática, mostrou-se muito importante e eficiente para nós.

Em 2018, antes da crise argentina, quando tivemos a necessidade de colocar uma usina que estava paralisada para operar, esses elementos que foram discutidos na terceirização e na lei trabalhista permitiram fazer a usina operar em uma velocidade nunca vista.

Ela criou um ambiente jurídico menos complexo do ponto de vista de como lidamos com isso. No dia a dia da Gerdau, pequenas coisas que vieram com essas reformas nos ajudaram muito. Vejo que essas outras reformas também vão trazer um nível de competitividade enorme para a indústria nacional.

Mas não houve uma precarização do trabalho?

[A lei] permitiu criar relações de trabalho que estão condizentes com essa grande transformação pela qual o mundo passa. Veja o nosso caso, uma empresa centenária, que sempre teve as suas formas de trabalhar.

Hoje praticamos home office de uma forma muito mais intensa do que já foi no passado. Entendemos que a meritocracia continua válida, somos uma empresa que tem importantes metas a cumprir, mas eu não posso me importar se a pessoa chega às 8h, às 9h ou às 10h no trabalho.

Imagine as mães que têm filhos pequenos, que precisam dedicar tempo aos filhos. Como eu crio condições para essas mães equilibrarem bem a vida pessoal com a profissional?

Esses elementos não precarizaram o trabalho, criaram condições de trazer pessoas que estavam fora do ambiente de trabalho para dentro das empresas.

Os nossos programas de diversidade e inclusão, que são muito importantes no sentido de trazer mais mulheres para o ambiente industrial, de trazer mais negros, os PCDs (Pessoas com Deficiências), LGBTs.

Acredito que até nesse sentido as leis trabalhistas mais modernas nos favorecem. Vimos na prática. Meu ponto de vista é que houve ganhos.

Quais são os principais gargalos do setor no país?

Eles são muitos, mas diria que a questão da infraestrutura e da logística definitivamente é um deles. O segundo é a questão tributária no Brasil. Ela realmente tira competitividade do jeito que está.

Para ter uma ideia, vamos comparar a operação no Brasil, que é bastante semelhante em termos de geração de caixa, com a nossa operação nos Estados Unidos. Aqui há 115 pessoas trabalhando na área de impostos, nos Estados Unidos, sete.

Veja como é complexo lidar com impostos no Brasil. Cada vez que colocamos um produto no porto para exportar, ele vai com um resíduo tributário de 7%.

No porto, dentro do navio, o nosso produto já vai com 7% menos de competitividade que um produto chinês, por exemplo. Então enquanto não se resolver essa questão da reforma tributária, enquanto não se investir em infraestrutura, teremos dificuldade em competir.

E como mudar esse cenário?

Sem dúvida tem que passar por uma simplificação, por um ambiente regulatório, legal, menos complexo. Confiamos que a reforma tributária será resolvida, mas precisa ser uma reforma que realmente resolva esses grandes problemas que foram sendo criados ao longo do tempo.

Qual a sua opinião sobre ICMS dos Estados?

É preciso haver uma simplificação, com um tempo, que não pode ser muito longo, para a readequação das finanças dos Estados a um ambiente de impostos mais simples.

Acreditamos também que, caso a transição demore muitos anos, haverá uma redução na competitividade da indústria ao longo do tempo. Enquanto isso, estamos trabalhando para criar mecanismos que permitam voltar a exportar no curto prazo.

O setor de aço no Brasil trabalha com utilização muito baixa, na ordem de 65% de toda a capacidade instalada. Calculamos que, se o governo fosse capaz de criar mecanismos de curto prazo para resolver esse problema do resíduo tributário, a capacidade da indústria de aço no Brasil poderia subir rapidamente de 65% para 72%, gerando riquezas, impostos e empregos.

Mas isso não resultaria em perda de arrecadação do governo?

O que defendemos há bastante tempo é que essa devolução do resíduo tributário para as empresas irá permitir que exportem mais e, no total da receita adicional, o governo vai ganhar também em termos de arrecadação.

É aquela famosa equação ganha-ganha: o governo arrecada mais, a indústria gera mais empregos, as empresas conseguem melhorar a sua competitividade.

Defendemos, e não só o setor do aço, mas outros setores exportadores do Brasil, que esse mecanismo ganha-ganha deveria ser implantado de imediato. Propomos que se faça um teste durante um período de 12 meses para ver se a arrecadação vai aumentar com o crescimento das exportações.

Se em algum momento, a indústria do aço já foi rica, ela não é mais. A indústria vem sofrendo muito nos últimos anos com uma sobrecapacidade criada pelo crescimento rápido de produção na China.

Para ter uma ideia, em 2019, o Brasil consumiu com seus veículos, prédios, construções, cerca de 25 milhões de toneladas de aço. A China consumiu 950 milhões.

A partir do momento em que a China ocupou esse espaço grande no mundo e sobrou capacidade de aço, as margens foram muito comprimidas.

A reforma da Previdência é suficiente?

Foi um primeiro passo. Assim como as empresas, que precisam ter alta adaptabilidade como diferencial competitivo, o governo vai precisar ter também. Acredito que nada é definitivo e cada vez mais se adaptar às mudanças é questão de sobrevivência para todas as partes.

[A reforma trabalhista] não precarizou o trabalho. Criou condições de trazer pessoas que estavam fora do ambiente de trabalho para dentro das empresas, de trazer mais mulheres para o ambiente industrial, mais negros, PCDs (Pessoas com Deficiências), LGBTs

Reforma de casa é experiência ruim

UOL – Qual é o futuro da indústria do aço no Brasil?

Gustavo Werneck – A indústria do aço está se transformando. Será uma indústria muito mais perto do consumidor final, vai mudar a experiência do consumidor em termos de qualidade do produto, solução de construção. Vamos tornar essa experiência de construir e reformar muito mais prazerosa, mais divertida do que já foi no passado.

E como isso deve acontecer?

A experiência de construir e reformar é ruim globalmente. Há um estudo, de 2017, que mostra que 17% do que é investido em construção civil globalmente é desperdiçado com retrabalho, material mal especificado, com qualidade da obra.

Tomamos uma série de iniciativas neste sentido, recentemente. Em parceria com a Votorantim e com a Tigre, criamos uma empresa chamada Juntos Somos Mais, cujo objetivo final é exatamente este: fazer com que a experiência de qualquer cidadão brasileiro que tome a decisão de pintar a sua casa ou reformar um banheiro possa ser efetivamente prazerosa.

No futuro, quando uma pessoa assistir a uma propaganda de um banheiro que ela deseja, possa, pelo aplicativo, contratar a reforma do banheiro, e terá todo um ecossistema trabalhando por trás, com produtos e serviço, para entregar um banheiro na qualidade, no tempo e na especificação.

Isso vai mudar a experiência do Brasil. Esse é o nosso sonho e é por isso que eu falo que a indústria vai se aproximar do consumidor. E a Gerdau que está prestes a completar 120 anos de história quer fazer parte dessa transformação.

Qual é a grande dificuldade de você fazer uma obra hoje?

Não há um problema único, são diversos. É a falta de comunicação entre o que o cliente quer e o profissional entendeu. Há um problema de especificação de material, de gestão do canteiro, de material entregue fora do prazo.

São problemas que, somados, fazem com que a experiência seja ruim em todos os sentidos. O setor de construção civil está trabalhando para eliminar todas as pequenas ineficiências ao longo da cadeia.

Como que a Gerdau está participando disso?

Na verdade, quando o consumidor decide ampliar a sua casa ou reformar, existe uma série de produtos que vai ter que comprar, passando pelo aço, pelo cimento, revestimento.

A Gerdau vai participar com o fornecimento dos produtos do segmento que ela atua, mas também quer fazer parte dessa solução como um todo. O consumidor não vai comprar um aço ou um metal, ele vai comprar um banheiro, e ali vão estar os fornecedores trabalhando por trás nesse ecossistema entregando uma solução completa para o consumidor.

Esse trabalho conjunto da indústria não vai prejudicar o comércio da construção civil e o mercado de serviços?

Há um detalhe importante: no Brasil há cerca de 148 mil lojas e entendemos que isso não vai acabar. Toda essa entrega de serviço para o consumidor final virá por meio destas lojas de material de construção, mas mais bem administradas, com profissionais na obra mais bem qualificados. Essa cadeia não vai desaparecer, mas, com a indústria, vai entregar a solução final para o consumidor.

Neste momento, estamos atraindo para a plataforma os profissionais da obra. O Brasil tem 5 milhões de profissionais de obra: pintor, carpinteiro, encanador. Estamos trazendo esses profissionais para dentro da plataforma, e também vamos ajudá-los a se qualificar, a melhorar a gestão. Todo mundo vai ganhar.

Política atrapalha competitividade

UOL – Como a política interfere nos negócios?

Gustavo Werneck – Principalmente, não criando condições competitivas dos muros para fora. O somatório de pequenas ineficiências dos muros para fora tira a nossa competitividade.

Esperamos realmente que esse famoso custo Brasil possa ir se reduzindo ao longo do tempo para que tenhamos condições, em termos de práticas do negócio como um todo, comparáveis às melhores referências da OCDE.

Quanto é o custo Brasil?

Ele foi codificado recentemente em 22% do PIB. Essa ineficiência que as empresas brasileiras têm que lidar no dia a dia quando se compara às melhores práticas.

Que transformações digitais a empresa teve?

Há vários exemplos. Na usina Ouro Branco MG), que compra carvão metalúrgico e coloca no forno para produzir o ferro-gusa, que por sua vez vai virar aço, por meio de um algoritmo com inteligência artificial, sabemos qual será a melhor data para comprar o carvão.

Na nossa área industrial brasileira, instalamos cerca de 40 mil sensores nos mil equipamentos mais importantes. Eles pegam todas as variáveis e simulam online a operação das nossas usinas, antecipando se haverá algum problema em um equipamento.

Com toda essa tecnologia, por que aconteceram tragédias como a de Brumadinho e Mariana, como foi o caso com a Vale?

Difícil avaliar o que não controlamos ou dominamos. É difícil saber o dia a dia das outras empresas. Mas essa questão para nós, a da segurança, sempre foi muito forte: a segurança das pessoas e a preocupação com o meio ambiente sempre fez parte da cultura da empresa nesses 120 anos.

Procuramos também utilizar fortemente a transformação digital nesses temas da segurança. Colocamos câmeras instaladas em nossas operações que conseguem identificar situações inseguras e imediatamente alertam um de nossos líderes para que tomem soluções imediatas.

Há em nossas empilhadeiras sensores que detectam, por exemplo, quando os olhos dos operadores têm sinais de cansaço e imediatamente param a máquina.

O problema é na fiscalização das empresas?

Posso falar do dia a dia das nossas operações. A Gerdau tem uma barragem de rejeito de minério e um grande reservatório de água.

Os órgãos fiscalizadores têm sido bastante presentes no nosso dia a dia, mesmo antes dos acontecimentos no Brasil.

A nossa percepção é que não falta fiscalização pelo menos no dia a dia das operações da Gerdau.

Existe alguma inovação no mundo para mudarmos a questão do acúmulo de rejeitos?

Essa inovação já está sendo feita no Brasil. O processo de mineração a seco, que não acumula rejeitos líquidos em barragens já está acontecendo.

No caso da Gerdau, como temos uma barragem de rejeito de minério com líquido, o que vamos fazer nos próximos anos é transformar em processamento a seco.

Em vez de armazenar o rejeito em barragem, armazena em pilhas, como se fosse uma pizza de rejeito a seco, que evita esse problema.

O que é responsabilidade social e ambiental para a Gerdau?

Essa é uma demanda da sociedade e dos investidores. Quando vamos conversar, por exemplo, com grandes investidores, com a própria Black Rock (empresa de gestão de investimentos), eles nos perguntam dos temas de sustentabilidade muito antes de perguntar sobre questões do mercado.

Do ponto de vista ambiental, abrimos de forma absolutamente transparente todos os nossos indicadores, por exemplo, de emissão de gases do efeito estufa, e colocando metas ao longo prazo para promover uma diminuição significativa nessas emissões.

Do ponto de vista social, trabalhamos para conquistar a certificação como uma empresa B (que visa uma modelo mais sustentável). Promovemos uma profunda transformação no sistema de diversidade e de inclusão, o que também não é muito comum no setor industrial, é um setor machista, e isso a gente não aceita mais.

Queremos um ambiente onde as mulheres tenham mais participação, com maior participação de raças.

Matéria UOL: : Beth Matias (reportagem), Armando Pereira Filho (edição), Marcelo Justo (fotos); Vinícius Andrade (imagens); Thais Andrea (edição de imagens); René Cardillo (direção de arte); Micaele Martins (infografia);

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